Entendi desde muito cedo que amar dói nos ossos. Amar tem um gosto amargo ao final da mordida. Amar dá vontade de se atirar de um precipício. Amar faz os cabelos caírem, os olhos arderem. Amar dá vontade de bater a cabeça nas paredes. Amar fere, mutila, reduz. Amar é mudez e pequenez e insignificância. Amar é morrer um pouco a cada dia e entender que vale a pena perder a si pelo outro. É impossível imitar a forma como você sofre . Não sei se um dia serei capaz de esquecer essa frase. Meu sofrer, por muito tempo da vida, foi tudo o que eu tive. E o sofrer também me manteve viva - porque ainda era melhor do que o não sentir. O meu sofrer era identitário. Ele dizia sobre quem fui, sobre quem sou e sobre quem serei. E sobretudo, sobre o que eu não gostaria de ser. Não sei se foram os livros, mas a tragédia sempre me pareceu muito palpável. Romeu e Julieta, O Morro dos Ventos Uivantes, Amor, Sublime Amor . Desventuras sobre um sentimento que eu acreditava ser real. Não sei em que ponto...
Era uma quarta-feira comum de outono. Acordei com preguiça. Tentei listar os afazeres do dia - nada em particular. Tomei os meus remédios, troquei o pijama. Meu marido havia saído antes que eu despertasse e meu cachorro aparentemente tinha dormido fora do quarto. Desci para buscá-lo, e no meio das escadas escutei o barulho da porta da frente abrindo. Entrou uma mulher cabisbaixa, com uma vassoura nas mãos, e sem me olhar começou a varrer o teto da sala. Não havia sinal do meu cachorro. A mulher varria o teto com tamanha naturalidade que por um momento pensei ter sido contratada pelo meu marido, e que talvez ele tivesse esquecido de me informar. Seus cabelos escuros pareciam sujos, como se não lavados há semanas. Usava roupas acinzentadas em um número muito maior que o dela. Era esguia e tinha a postura curvada. Não saberia estimar uma idade. De longe, observei que tinha os cantos da boca levemente levantados, como se achasse graça em algo. Pareceu disfarçar quanto sentiu meu olhar. Tom...