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Pretérito.

há um vazio ingrato emanando em silêncio um pulso descontínuo em tons de gris inaudível, se comunica por códigos  códigos esses intraduzíveis, inocentes e inflamáveis se o vazio pudesse gritar, ele diria algo como "deixe-me" o que facilmente poderia significar "não me deixe só" mas o processo de significação com frequência se perde  entre as precipitações e os precipícios dobrei em uma esquina errada há tempos atrás mas mesmo enxergando o caminho lamacento e torto não pude e não posso retroceder não tenho destino e os que não o tem podem habitar qualquer estrada busquei acalento em minha própria voz sentei com paciência para escutar o que dizia choramingou por alguns minutos tirou um pigarro da garganta e disse: "me diga, anã negra, é você a dona de toda essa solidão?" encarei um espelho e procurei respostas os olhos denunciavam noites insones e por baixo do cansaço evidenciavam uma insanidade intrínseca total e completa desconexão com os arredores olhos q...
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Parábola.

pairava a poucos centímetros do chão em um descampado alaranjado uma redoma de bronze de três metros de diâmetro com duas mulheres de cabelos escuros dentro de fora nada se ouvia nada se movia e poderia se dizer que ninguém existia lá dentro pois não havia voz ou imagem qualquer mas as duas mulheres de cabelos escuros discutiam em alto tom trocavam olhares maliciosos anulavam os credos uma da outra  e competiam constantemente pela voz que mais berrasse a de olhos claros era sorrateira como uma cobra a maior fobia da de olhos escuros era qualquer tipo de serpente a de olhos escuros era confiante como uma leoa  a de olhos claros sabia ter pendido para raposa inevitavelmente opostas predadoras uma da outra as duas mulheres de cabelos escuros se agrediam não havia espaço suficiente em uma única redoma de bronze para que as duas florescessem  então separaram-nas  e todos clamaram: "terão paz!" mas faziam parte uma da outra e ainda agressivas precisavam habitar a mesma red...

Oblívio.

em uma altura dessas sinto a brisa bagunçar meus cachos e tento me lembrar das últimas vezes em que fui tão dona do meu caminho fumo o meu último cigarro acendo um incenso de camomila para disfarçar conto a quantidade de luzes acesas no prédio vizinho e no ao lado desse e no próximo até que sinto uma vontade de gritar é quando percebo a hora de fechar as cortinas coloco uma música familiar e danço a mesma dança que dançava antes o robe engancha nos móveis os pés tropeçam bêbados separo uma vela roxa com as mãos trêmulas faço minha prece e aguardo por um milagre? não exatamente acredito em milagres não exatamente acredito em qualquer coisa que seja mas é natural do ser humano implorar então encaro a vela e penso no que meu âmago deseja nada acontece percebendo a juvenilidade do equívoco dou um sopro e volto para o quarto sento no piano e toco músicas até os pulsos arderem canto porque é a única voz que tenho termino suando frio com a sensação claustrofóbica de ter se trancado em um pequ...

Stella.

Entendi desde muito cedo que amar dói nos ossos. Amar tem um gosto amargo ao final da mordida. Amar dá vontade de se atirar de um precipício. Amar faz os cabelos caírem, os olhos arderem. Amar dá vontade de bater a cabeça nas paredes. Amar fere, mutila, reduz. Amar é mudez e pequenez e insignificância. Amar é morrer um pouco a cada dia e entender que vale a pena perder a si pelo outro.  É impossível imitar a forma como você sofre . Não sei se um dia serei capaz de esquecer essa frase. Meu sofrer, por muito tempo da vida, foi tudo o que eu tive. E o sofrer também me manteve viva - porque ainda era melhor do que o não sentir. O meu sofrer era identitário. Ele dizia sobre quem fui, sobre quem sou e sobre quem serei. E sobretudo, sobre o que eu não gostaria de ser. Não sei se foram os livros, mas a tragédia sempre me pareceu muito palpável. Romeu e Julieta, O Morro dos Ventos Uivantes, Amor, Sublime Amor . Desventuras sobre um sentimento que eu acreditava ser real. Não sei em que ponto...

Denise.

Era uma quarta-feira comum de outono. Acordei com preguiça. Tentei listar os afazeres do dia - nada em particular. Tomei os meus remédios, troquei o pijama. Meu marido havia saído antes que eu despertasse e meu cachorro aparentemente tinha dormido fora do quarto. Desci para buscá-lo, e no meio das escadas escutei o barulho da porta da frente abrindo. Entrou uma mulher cabisbaixa, com uma vassoura nas mãos, e sem me olhar começou a varrer o teto da sala. Não havia sinal do meu cachorro. A mulher varria o teto com tamanha naturalidade que por um momento pensei ter sido contratada pelo meu marido, e que talvez ele tivesse esquecido de me informar. Seus cabelos escuros pareciam sujos, como se não lavados há semanas. Usava roupas acinzentadas em um número muito maior que o dela. Era esguia e tinha a postura curvada. Não saberia estimar uma idade. De longe, observei que tinha os cantos da boca levemente levantados, como se achasse graça em algo. Pareceu disfarçar quanto sentiu meu olhar. Tom...

Adam.

foram exatos dois anos cinco meses e vinte e dois longos dias até que pudesse retornar para casa em todos os segundos recordei-me do som de sua voz dos dizeres poéticos do sotaque etílico dos dentes desalinhados das graças que eram intrínsecas a ela meus lábios lembravam do gosto meus olhos ansiavam pelos cabelos escuros meus dedos sabiam o mapa perfeito de sua pele tudo sobre ela era meu e eu fui inteiro dela foram exatos dois anos cinco meses e vinte e dois longos dias até que pudesse retornar para casa sentado na calçada pensei no que dizer em como explicar justificar inventar uma forma de dizê-la que nunca quis machucá-la que ela não tinha culpa de minha iniquidade que soçobrei ao desespero que não houve intenção de desgraçá-la  e mesmo consciente de que nenhum roteiro me salvaria toquei a campainha com dedos trêmulos (foram exatos dois anos) aguardei o que pareceu uma eternidade e nenhum olhar conhecido me atendeu (cinco meses) eis que com um sopro de coragem bato à porta esmu...

Limbo.