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Denise.

Era uma quarta-feira comum de outono. Acordei com preguiça. Tentei listar os afazeres do dia - nada em particular. Tomei os meus remédios, troquei o pijama. Meu marido havia saído antes que eu despertasse e meu cachorro aparentemente tinha dormido fora do quarto. Desci para buscá-lo, e no meio das escadas escutei o barulho da porta da frente abrindo. Entrou uma mulher cabisbaixa, com uma vassoura nas mãos, e sem me olhar começou a varrer o teto da sala. Não havia sinal do meu cachorro.

A mulher varria o teto com tamanha naturalidade que por um momento pensei ter sido contratada pelo meu marido, e que talvez ele tivesse esquecido de me informar. Seus cabelos escuros pareciam sujos, como se não lavados há semanas. Usava roupas acinzentadas em um número muito maior que o dela. Era esguia e tinha a postura curvada. Não saberia estimar uma idade. De longe, observei que tinha os cantos da boca levemente levantados, como se achasse graça em algo. Pareceu disfarçar quanto sentiu meu olhar.

Tomada por um súbito desconforto, retornei ao meu quarto. Fechei a porta, deitei na cama e tentei me convencer de que aquilo não havia acontecido. Ouvi a maçaneta da porta. Respirei menos do que o suficiente. A mulher entrou no meu quarto, sem nenhuma cerimônia, apontou a vassoura para o teto e começou a varrer exatamente acima da minha cabeça. Fiquei paralisada pelo medo por alguns segundos. Visualizei melhor seu rosto, e poderia jurar que naquele momento seus olhos haviam dobrado de tamanho.

Desci correndo apenas para reencontrar a mulher na sala, com olhos esbugalhados. Sua perna esquerda havia sido substituída por uma perna mecânica. Dessa vez, o sorriso não estava apenas no canto dos lábios. Ela gargalhava baixo. Soava como se caçoasse de mim. Um riso de escárnio, de podridão. A vassoura seguia nas mãos, limpando o mesmo quadrado de teto. Não me olhava, mas parecia de alguma forma ciente de minha presença. 

Encurralada, retornei ao andar de cima e me tranquei no banheiro. No espelho vi minha própria expressão de horror e comecei a chorar. Buscava teorias, saídas. Nada fazia sentido. Estava sentada atrás da porta quando ouvi, pela primeira vez naquela manhã, meu cachorro latir. Desci correndo sem pensar. Ele estava bastante agitado em relação à mulher, que parecia ter olhos ainda maiores. Em pânico, corri com meu cachorro para a porta dos fundos. 

O cachorro começou a latir pelas ruas do condomínio e eu corri em direção ao vizinho mais próximo. No final da rua, encontrei alguns vizinhos reunidos em frente à uma casa. Relatei todo o ocorrido para eles, com a maior riqueza de detalhes possível. Pareceram todos pouco interessados. Depois de alguns questionamentos, a senhora da casa 23 levantou a voz: "Denise, você não tem transtorno bipolar?". Minhas pernas ficaram bambas. A questão é que eu tinha, de fato, mas nenhum daqueles vizinhos sabia dessa informação. 

A esse ponto eu já não sabia mais se a mulher não existia fora da minha mente ou se os vizinhos de alguma forma estavam me induzindo a acreditar que eu estava em surto. Não tive muito tempo para chegar à conclusões. Avistei de longe o cabelo desgrenhado e a perna mecânica vindo da minha casa, na minha direção. Corria. Comecei a gritar de forma histérica e sinalizar para que os vizinhos olhassem a aparição. Consegui escutar "se acalme, está tudo bem" em um tom masculino, quando ela estava prestes a me alcançar. Fechei os olhos.

Tudo ficou em silêncio por alguns segundos. Senti frio. Quando ousei enxergar novamente, me vi sentada numa poltrona verde familiar. Olhei ao redor, ainda tensa. Recebi nas mãos alguns papéis - prescrições de medicamento. Era a caligrafia do meu psiquiatra. Finalmente consegui reconhecê-lo, e me dei conta de estar em seu consultório, segura. Tentei relatar a situação para ele, mas aparentemente eu já havia feito isso, e por isso recebi a indicação de um novo medicamento para o meu "recorrente quadro de psicose". Peguei a receita, mais frustrada do que gostaria de admitir.

Quando fui buscar meus documentos na recepção, notei uma figura de cabelos sujos, olhos esbugalhados e um leve sorriso de canto varrendo lentamente o teto da clínica. Ela me encarou, mostrou todos os espaços vazios onde deveriam existir dentes, acenou como uma miss e voltou ao trabalho. A secretária me cutucou para entregar os documentos. Por cima da foto da minha identidade, uma mancha escrita em tinta preta: "te vejo em casa".


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