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Jasmim.

Era algum dia entre dez e quinze de setembro e o entardecer caía calmo sob a copa das árvores. O dia estava extremamente silencioso e só o que se ouvia era o canto aflito de um sabiá aprendendo a voar. Sempre gostei de passar minhas tardes de primavera admirando o desabrochar das flores e sentindo o vento em meu cabelo.  Como que intencionalmente, uma abelha grudou em meus cachos, atrapalhando minha paz. Está aí a pior parte da natureza: insetos. Passei as mãos desajeitadas entre os fios enquanto me esforçava em vão para não entrar em pânico.  Fui vencida em minha luta. O local da ferroada latejava e eu só pensava no quanto queria que todas as abelhas do mundo sumissem. Instigada pela vingança, persegui a maldita abelha e a esmaguei entre meus dedos. Quem é a esperta agora, hein? , pensei alto.  Voltei ao lugar onde estava sentada e me atentei a terminar minha leitura. Eu estava tentando concluir meu exemplar de  O Retrato de Dorian Gray há meses, mas faltava...

Nada que alguns goles de álcool não resolvam.

São 3:28h da manhã e minha única companhia é essa garrafa de vodka. "Um shot", disse a mim mesma. Nunca é só um shot. Ás vezes a gente só precisa espairecer a mente, não é? No meu caso, preciso tirar uma folga da minha consciência. Preciso esquecer que meus problemas existem, pelo menos momentaneamente. É só uma garrafa. Isso vai me fazer bem. Um shot se tornou dois. Dois se tornaram cinco. E lá se foi a garrafa inteira. Vai ficar tudo bem . No máximo uma ressaca amanhã. É. Não passou muito tempo e já sinto a cachaça no controle. Minha visão está turva. Minha cabeça dói. Não consigo me manter em pé. Vai ficar tudo bem. Me deu vontade de ligar pra ele. Porque não? Ele me odeia. Eu o amo. Não me importa. Eu vou ligar. E disquei os números embaralhados na tela ardorosamente iluminada do celular. Nove... Três... Oito?  Não lembro mais. Acho que teclei certo. Ou não? Eu não sei. Acho que tenho o número na agenda. Isso é uma boa ideia? Isso é u...

A Lenda de Hiiumaa.

O vilarejo onde cresci sempre foi extremamente calmo. Passei minha vida inteira em um povoado isolado na ilha de Hiiumaa, na costa oriental do mar Báltico. Sempre foi uma vivência um tanto pequena, mas, apesar do tédio, nunca tive do que reclamar.  Eu e minha família éramos em cinco. Eu, minha mãe, minha avó e minhas duas irmãs habitávamos uma espécie de choupana de uns poucos metros quadrados. Não haviam figuras masculinas em nossa vivenda. Meu avô morreu antes de meu nascimento e meu pai, um estrangeiro que caiu em Hiiumaa por azar do destino, fugiu da ilha na primeira oportunidade que teve. Não o culpo por isso. A inércia do vilarejo é capaz de desvairar até as mentes mais sãs.  A aldeota era sustentada por pesca e artesanato. Vendíamos nossos peixes para toda a Estônia e nossas habilidades artísticas eram vastamente reconhecidas. Apesar de aparentar nunca evoluir, a vila prosperava. Como minhas opções se restringiam basicamente a ser artesã ou pescadora (e essa tare...

15:03h

     Laila acordou desnorteada e confusa. Tudo ao seu redor parecia errado. Ela estava jogada no asfalto, completamente suja e machucada. Tentou gritar por ajuda, mas não havia ninguém por perto. Levantou sem dificuldade e percebeu que por algum motivo seus ferimentos não doíam. Nada daquilo fazia sentido. O sangue parecia ter estancado antes mesmo de sair de seus vasos, de modo que haviam feridas abertas profundas que não latejavam e nem sangravam. A sujeira de seu corpo parecia ter se unido a sua pele, denunciando dias - talvez semanas - sem limpeza. Começou a andar pela rua em que acordara em busca de alguém que pudesse explicá-la o que estava acontecendo. Não obteve sucesso. Por mais que andasse, todas as esquinas pareciam iguais. Todas as ruas eram a mesma rua. Até o padrão de organização das nuvens parecia repetido. Laila teve a sensação de estar presa em um quadrado - e estava. Quando finalmente percebeu que andar era inútil, resolveu sentar e pensar. Su...

Um pesadelo aleatório.

O entardecer estava pálido. Acordei em uma avenida desconhecida. A temperatura do asfalto fazia meu rosto arder. Meus cabelos, desgrenhadamente amarrados, indicavam cansaço. Levantei com dificuldade, revelando ferimentos rasos nas costas e nas pernas. Olhei em volta em busca de ajuda. Não havia ninguém. A cidade parecia uma grande metrópole, mas não havia uma alma sequer - nem a minha. Comecei a andar sem rumo pela avenida vazia com uma esperança vaga de não estar sozinha. As feridas sangravam e eu me esforçava para ignorar a dor. Andei por algum tempo. Quanto tempo? Não sei. Pareceram horas, mas podem ter sido apenas alguns minutos. No meio da caminhada monótona de tempo indeterminado, uma figura distante se destacou em meu campo de visão. De súbito tornei-me pura esperança. Empenhei toda a força que me restava para correr em direção à figura humanoide. Mil perguntas gritavam no meu subconsciente. Para onde foram todas as pessoas? O que aconteceu comigo? Que lugar era aquel...

Luce.

Amava música como ninguém. Recitava Baudelaire como se Flores do Mal tivesse sido escrito por ela própria. Luce exalava poesia. Eu amava poesia. Nos conhecemos por acaso - há quem chame de destino, mas nunca gostei de acreditar que as coisas fossem determinadas por uma força maior. Eram 4:30h da manhã e eu estava sozinho em um mirante na praia do Rio Vermelho esperando o amanhecer. Costumava ir a esse mirante para pensar quando a correria da vida afogava minha mente. Depois do terceiro cigarro, minha vista foi tomada por uma figura distante. Havia uma moça com um suéter avermelhado andando descalça na areia. Ela olhava o mar com intensidade, como se quisesse absorvê-lo. O vento fazia seu cabelo castanho dançar elegantemente. Tudo sobre ela era gracioso. Encarei-a por instantes, mas ela parecia estar conectada demais à ventania e às ondas para notar minha existência.  Na madrugada seguinte, retornei ao mirante na esperança de revê-la. A peculiaridade da moça do suéter vermelho...

A Medíocre História de Timothy.

Numa madrugada invernosa de julho, nasceu Timothy. Fraco, magro, frio. Fruto de um estupro, foi jogado em um orfanato. A mãe não quis vê-lo. As enfermeiras escolheram seu nome.  Pobre Timothy, não foi amado. Aos três anos, descobriu o mundo mágico da música. Cantarolava adágios por horas, batia palmas para manter o ritmo. As notas desafinadas ajudavam a passar o tempo.  Não tinha coleguinhas. Refletia em todas as possíveis relações a falta de amor em sua alma.  Pobre Timothy, nunca amaria.  Aos dez anos não sabia ler ou escrever. Nunca fôra à escola. Não falava, não interagia. Mas cantava. Sozinho. Aos doze foi adotado por pais que perderam a filha em um acidente. Queriam-o para substituto. Fugiu. Não sabia ter família. Pobre Timothy, não sabia amar. Aos quinze anos não tinha nada. Vagava pelas ruas como um garoto perdido - e era. As madrugadas gélidas e vazias eram de pensamento. Sua mente pulsava pura desordem. Sofria com a consci...