Entendi desde muito cedo que amar dói nos ossos. Amar tem um gosto amargo ao final da mordida. Amar dá vontade de se atirar de um precipício. Amar faz os cabelos caírem, os olhos arderem. Amar dá vontade de bater a cabeça nas paredes. Amar fere, mutila, reduz. Amar é mudez e pequenez e insignificância. Amar é morrer um pouco a cada dia e entender que vale a pena perder a si pelo outro.
É impossível imitar a forma como você sofre. Não sei se um dia serei capaz de esquecer essa frase. Meu sofrer, por muito tempo da vida, foi tudo o que eu tive. E o sofrer também me manteve viva - porque ainda era melhor do que o não sentir. O meu sofrer era identitário. Ele dizia sobre quem fui, sobre quem sou e sobre quem serei. E sobretudo, sobre o que eu não gostaria de ser. Não sei se foram os livros, mas a tragédia sempre me pareceu muito palpável. Romeu e Julieta, O Morro dos Ventos Uivantes, Amor, Sublime Amor. Desventuras sobre um sentimento que eu acreditava ser real.
Não sei em que ponto exatamente tomei consciência do caminho pedregoso que trilhei sozinha. Talvez tenha sido quando chamou outra de senhora. Ou quando percebi que a nossa música favorita nunca foi a sua música favorita. Ou quando preferiu dar as flores que ansiei para alguém que não importava. Ou quando numa quarta-feira qualquer decidiu que não me amava mais. O amor tinha durado até a terça, mas de alguma forma fui incapaz de reparar. Tola.
Alguns dias são melhores que outros. Às vezes me forço a acreditar que você nunca existiu. Às vezes choro escondida por vergonha de soçobrar por alguém que sequer toma conhecimento da minha existência. Não é por amor - digo para mim mesma. Só que o sentimento tem gosto de fel e cheiro de azedume. E somente o amor é capaz de causar um transtorno tão fétido e vil. Eu não te amo mais, repito. E então te vejo usando a corrente de ouro que presenteei. Um presente que nunca era usado em minha presença e que de alguma forma parece ser usado casualmente na minha ausência. Um lembrete constante de que não fui capaz.
Hoje tive que me medicar. Dormi por um dia inteiro porque não conseguia lidar com a minha própria existência. Condicionei o meu existir ao seu. Girei toda a minha vida ao seu redor. Fiz o que pediu, falei o que solicitou. Reduzi todo o potencial do que eu poderia ser às suas expectativas. Só, não sei mais quem sou. Minha alma se encontra perdida entre seus comandos. Devo? Posso? Tenho alguma condição de? Aguardo sua permissão para ser. E ao mesmo tempo entendo que não te interessa mais regir o meu caminho e que agora sou fatalmente livre para decidir.
No fim da tarde, talvez eu não tenha sido muito mais do que um brinquedo sexual catatônico. Um receptáculo de tudo o que fedia em você. Um ouvido atento para escutar um afônico, uma mente fragmentada para receber alfinetes e versos falsos. Eu cuido de você, dizia. E então construía um muro enorme entre nós e me trancava do outro lado. Eu sempre vou cuidar de você. E no minuto seguinte me descartava como se nenhum esforço fosse capaz de alcançá-lo. Corri tanto em busca de sua alma que dei a volta no mundo e me encontrei sozinha no ponto de partida.
Por um ano inteiro encarei as pedras de safira no meu dedo. Não sei dizer se fui tão feliz quanto pensava ser. Certamente achava que sim, mas e a tragédia? E as desconhecidas que ocupavam o meu lugar? E as palavras ácidas que ardiam em minha garganta ao ponto de asfixiar? Era amor, isso é certo. Era amor porque eu me agarrava aos travesseiros para sufocar os gritos. Era amor porque eu me destruía, me punia, me diminuía e me mutava para caber. Era amor porque eu permitia que você fizesse da minha vida o seu jogo - a sua simulacra da realidade. Com esse poder você me reergueu apenas para me mostrar que era possível respirar. Quando pensei viver, colocou as duas mãos na minha nuca e empurrou meus olhos na água, observando atentamente até que eu não tivesse mais forças para me mexer.
Contemplo todos os enganos. Encaro tudo o que tenho tatuado em minha carne. Os rastros serão um lembrete eterno de que você não só existiu quanto me enterrou em vida por diversas vezes, ainda que esse tenha sido o último e único ato que implorei para que não fizesse. Todas as minhas dores e algozes. Estive nua, crua, fria e exposta. Fiquei de pé no parapeito da janela e gritei para que me abraçasse. Quando fechei os olhos, estava caindo. Lá de cima, você me encarava impassível. Não entendia. Nunca entendeu. Nunca sentiu, também. Afinal, o amor era meu e somente meu. E com ele, caí abraçada até o fim.
"É impossível imitar a forma como você sofre".

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