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Há quem veja beleza.

A brisa de verão é o último toque de calor a deixar meu corpo. Meus pelos respondem. Meu cabelo já não é nada senão um monte de cachos caídos por onde querem. O cheiro do sal me incomodava no início, mas hoje me acolhe como um parente. Talvez meu único parente. Eu nunca sei o que venho fazer aqui. Simplesmente há algo que me atrai. Juro todas as vezes que será a última, mas volto a cortar meus pés nessas mesmas conchas. Prometo: e ssa será a última. Talvez eu continue voltando porque é aqui onde meu desleixo tem paz. Meu desleixo é voz e pensamento. Sou eu, nua e ferida. Só. E só medito. Eu e meus sentidos. Sentidos esses que me traem como um bom amante.  O crível e o incrível são figuras dispersas.  A dor acalenta e não provoca lágrimas.  Os pés descalços não protestam pela urgência de um caminho.  Eles desistiram.  Todos os caminhos sempre trarão à mesma praia.  Praia essa que é suja. Talvez tenha sido bonita um dia, eu não sei. Está co...

Brisa.

Não aconteceu nada de particular naquele dia. Acordei atrasada para a faculdade e corri até o ponto de ônibus ainda com um copo de café nas mãos. Sentei, arrumei meus cachos desgrenhados e coloquei um batom discreto enquanto esperava. Não demorou muito.  Cheguei na faculdade e decidi não entrar na primeira aula. O dia estava bonito demais para me trancar em uma sala com ar-condicionado e eu já estava atrasada de qualquer jeito. Joguei minhas coisas em um canto e fui conversar com o jardineiro. Ele sempre tinha alguma reclamação a fazer e eu gostava de ver o quanto ele se importava com as flores. Sempre gostei muito de flores. Não consigo lembrar quais aulas tive. Minha memória está cada vez menos específica e já não me recordo de alguns dados importantes. Talvez esse relato não passe de uma invenção da minha cabeça. Nunca saberemos. Passei a manhã na faculdade. No fim das aulas, peguei o primeiro ônibus. Acho que estava indo para casa. Lembro-me de transitar pela orla ...

Inconsciente.

Acordei certa feita sem saber o que me fizeram. Meu corpo pesava duas vezes o meu peso e minha cabeça doía. Nada de incomum acontecera na noite anterior e nenhum sinal de doença me acometia.  Levantei com dificuldade e fui ao banheiro buscar o espelho. Não me vi. Não vi porque não havia nada para ver. Eu não estava lá.  Busquei outros espelhos para confirmar minha ausência. Todos eles declaravam o mesmo. Ou aqueles não eram espelhos ou minha razão já não me sustentava como antes.  Saí em tremores seguindo a voz de alguém. Alguém esse que soava familiar, mas do nome eu não me recordava. O som me levou a uma moça. Ela pedia ajuda para alcançar um vaso em uma prateleira alta. Sua feição calma não parecia ter ciência do sumiço do meu reflexo. Expliquei a ela toda a situação. Ouviu atentamente e começou a procurar algo em uma gaveta. Pediu-me para sentar e disse que me ajudaria. Em instantes, sua feição calma deu lugar a um rosto disforme e assimétrico. Ela me mataria...

Prelúdio.

Meu nome é vento, qual o seu? Mostre-me algum e talvez nos conheçamos de uma esquina qualquer. Ou não. É difícil distinguir os tons de gris. Peço desculpas, mas talvez você é quem devesse pedir. Afinal, me apresentei, mas ainda não sei o seu nome. Você sabe? Meu nome é lua, qual o seu? Poderia ser estrela ou mar, mas existem estrelas demais e o mar é incapaz de contemplar sua constância. A que destino leva um caminho constante? Responda-me, pois tal destino será o seu. Você sabe? Meu nome é cigana, qual o seu? Decida-se enquanto há hora. O tempo existe, queiramos nós ou não. O tempo tem um nome. Quem são aqueles que não tem nenhum? Você sabe?

Danse Macabre - Final

A violinista. França, 1823 . Natalie acordou sem lembrar de como havia dormido. A última memória que tinha era o violino de vidro. Despertou ao som de algumas faces pálidas questionando o motivo de sua saída na tempestade. Marlon estava adormecido em uma cadeira de balanço no fim do corredor. Parecia ter passado a noite em claro. Pierre apareceu alguns minutos depois com a notícia de que um doutor viria examinar Natalie. A garota não entendeu. Sentia-se bem, era saudável, não precisava de um médico. A única coisa que Natalie precisava era encontrar o violinista mais uma vez. Sua existência agora figurava-se incompleta sem a presença daquele ser peculiar. Não tardou até que o médico chegasse. Houveram inúmeras perguntas sobre a fuga de Natalie da noite anterior. No meio de muitas suposições levantadas, a história do encontro com o violinista não foi em momento algum avaliada como verdade. Pierre acreditava que a moça tivera um episódio de histeria. As criadas preocupavam-se c...

Danse Macabre.

A violinista. França, 1823. Natalie estava impaciente. O relógio parecia parado. Esperava há horas notícias de Marlon, que fora pedir a Pierre, pai de Natalie, a benção para casar-se com sua filha. Depois de anos aguardando a chegada daquele dia, qualquer segundo passado era menos um segundo ao lado de Marlon. Chovia. Natalie contava cada gota de água que escorria vagarosamente pela vidraça. Não conseguia pensar em nada que não fosse Marlon e no quanto queria que Pierre abençoasse a união dos dois. A contagem entediante foi interrompida por uma melodia familiar. Um som melancólico de violino preencheu de súbito a mente e a alma de Natalie. - Tristesse, Friederich Chopin. -reconheceu. A música atraía Natalie como nada nunca havia feito antes. Todas as células de seu corpo ressonavam com as notas murchas que o violino gritava. Em êxtase, Natalie saiu de casa à procura do violinista. Esquecera a angústia de esperar Marlon. Tudo que queria naquele momento era descobrir a origem d...

Jasmim.

Era algum dia entre dez e quinze de setembro e o entardecer caía calmo sob a copa das árvores. O dia estava extremamente silencioso e só o que se ouvia era o canto aflito de um sabiá aprendendo a voar. Sempre gostei de passar minhas tardes de primavera admirando o desabrochar das flores e sentindo o vento em meu cabelo.  Como que intencionalmente, uma abelha grudou em meus cachos, atrapalhando minha paz. Está aí a pior parte da natureza: insetos. Passei as mãos desajeitadas entre os fios enquanto me esforçava em vão para não entrar em pânico.  Fui vencida em minha luta. O local da ferroada latejava e eu só pensava no quanto queria que todas as abelhas do mundo sumissem. Instigada pela vingança, persegui a maldita abelha e a esmaguei entre meus dedos. Quem é a esperta agora, hein? , pensei alto.  Voltei ao lugar onde estava sentada e me atentei a terminar minha leitura. Eu estava tentando concluir meu exemplar de  O Retrato de Dorian Gray há meses, mas faltava...