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Epílogo.

há um vazio ingrato emanando em silêncio todos o reconhecem mas sua origem é um mistério o vazio é nauseante de tão doce parece pertencer a alguém que há muito se dilacera ou é vestígio de algo que se desfez com o tempo sendo a curiosidade meu motor, segui-o e por muitos passos o ambiente se forjou estável foi construído de forma a aparentar ser oco foi construído de forma a instigar a desistência havia algum tesouro lá com urgência de ser encontrado mas com medo então andei andei o que pareceu ser três mundos inteiros foi quando praticamente vencido pelo cansaço se revelou a mim uma silhueta feminina desgrenhada trêmula e com grandes olhos tão doce que quis vomitar questionei-a me diga, anã negra, é você a dona de toda essa solidão? encarou-me os olhos brilhavam mais do que qualquer pedra preciosa eram a única imagem viva do lugar e em um último e longo suspiro eles se fech...

Há quem veja beleza.

A brisa de verão é o último toque de calor a deixar meu corpo. Meus pelos respondem. Meu cabelo já não é nada senão um monte de cachos caídos por onde querem. O cheiro do sal me incomodava no início, mas hoje me acolhe como um parente. Talvez meu único parente. Eu nunca sei o que venho fazer aqui. Simplesmente há algo que me atrai. Juro todas as vezes que será a última, mas volto a cortar meus pés nessas mesmas conchas. Prometo: e ssa será a última. Talvez eu continue voltando porque é aqui onde meu desleixo tem paz. Meu desleixo é voz e pensamento. Sou eu, nua e ferida. Só. E só medito. Eu e meus sentidos. Sentidos esses que me traem como um bom amante.  O crível e o incrível são figuras dispersas.  A dor acalenta e não provoca lágrimas.  Os pés descalços não protestam pela urgência de um caminho.  Eles desistiram.  Todos os caminhos sempre trarão à mesma praia.  Praia essa que é suja. Talvez tenha sido bonita um dia, eu não sei. Está co...

Brisa.

Não aconteceu nada de particular naquele dia. Acordei atrasada para a faculdade e corri até o ponto de ônibus ainda com um copo de café nas mãos. Sentei, arrumei meus cachos desgrenhados e coloquei um batom discreto enquanto esperava. Não demorou muito.  Cheguei na faculdade e decidi não entrar na primeira aula. O dia estava bonito demais para me trancar em uma sala com ar-condicionado e eu já estava atrasada de qualquer jeito. Joguei minhas coisas em um canto e fui conversar com o jardineiro. Ele sempre tinha alguma reclamação a fazer e eu gostava de ver o quanto ele se importava com as flores. Sempre gostei muito de flores. Não consigo lembrar quais aulas tive. Minha memória está cada vez menos específica e já não me recordo de alguns dados importantes. Talvez esse relato não passe de uma invenção da minha cabeça. Nunca saberemos. Passei a manhã na faculdade. No fim das aulas, peguei o primeiro ônibus. Acho que estava indo para casa. Lembro-me de transitar pela orla ...

Inconsciente.

Acordei certa feita sem saber o que me fizeram. Meu corpo pesava duas vezes o meu peso e minha cabeça doía. Nada de incomum acontecera na noite anterior e nenhum sinal de doença me acometia.  Levantei com dificuldade e fui ao banheiro buscar o espelho. Não me vi. Não vi porque não havia nada para ver. Eu não estava lá.  Busquei outros espelhos para confirmar minha ausência. Todos eles declaravam o mesmo. Ou aqueles não eram espelhos ou minha razão já não me sustentava como antes.  Saí em tremores seguindo a voz de alguém. Alguém esse que soava familiar, mas do nome eu não me recordava. O som me levou a uma moça. Ela pedia ajuda para alcançar um vaso em uma prateleira alta. Sua feição calma não parecia ter ciência do sumiço do meu reflexo. Expliquei a ela toda a situação. Ouviu atentamente e começou a procurar algo em uma gaveta. Pediu-me para sentar e disse que me ajudaria. Em instantes, sua feição calma deu lugar a um rosto disforme e assimétrico. Ela me mataria...

Prelúdio.

Meu nome é vento, qual o seu? Mostre-me algum e talvez nos conheçamos de uma esquina qualquer. Ou não. É difícil distinguir os tons de gris. Peço desculpas, mas talvez você é quem devesse pedir. Afinal, me apresentei, mas ainda não sei o seu nome. Você sabe? Meu nome é lua, qual o seu? Poderia ser estrela ou mar, mas existem estrelas demais e o mar é incapaz de contemplar sua constância. A que destino leva um caminho constante? Responda-me, pois tal destino será o seu. Você sabe? Meu nome é cigana, qual o seu? Decida-se enquanto há hora. O tempo existe, queiramos nós ou não. O tempo tem um nome. Quem são aqueles que não tem nenhum? Você sabe?

Danse Macabre - Final

A violinista. França, 1823 . Natalie acordou sem lembrar de como havia dormido. A última memória que tinha era o violino de vidro. Despertou ao som de algumas faces pálidas questionando o motivo de sua saída na tempestade. Marlon estava adormecido em uma cadeira de balanço no fim do corredor. Parecia ter passado a noite em claro. Pierre apareceu alguns minutos depois com a notícia de que um doutor viria examinar Natalie. A garota não entendeu. Sentia-se bem, era saudável, não precisava de um médico. A única coisa que Natalie precisava era encontrar o violinista mais uma vez. Sua existência agora figurava-se incompleta sem a presença daquele ser peculiar. Não tardou até que o médico chegasse. Houveram inúmeras perguntas sobre a fuga de Natalie da noite anterior. No meio de muitas suposições levantadas, a história do encontro com o violinista não foi em momento algum avaliada como verdade. Pierre acreditava que a moça tivera um episódio de histeria. As criadas preocupavam-se c...

Danse Macabre.

A violinista. França, 1823. Natalie estava impaciente. O relógio parecia parado. Esperava há horas notícias de Marlon, que fora pedir a Pierre, pai de Natalie, a benção para casar-se com sua filha. Depois de anos aguardando a chegada daquele dia, qualquer segundo passado era menos um segundo ao lado de Marlon. Chovia. Natalie contava cada gota de água que escorria vagarosamente pela vidraça. Não conseguia pensar em nada que não fosse Marlon e no quanto queria que Pierre abençoasse a união dos dois. A contagem entediante foi interrompida por uma melodia familiar. Um som melancólico de violino preencheu de súbito a mente e a alma de Natalie. - Tristesse, Friederich Chopin. -reconheceu. A música atraía Natalie como nada nunca havia feito antes. Todas as células de seu corpo ressonavam com as notas murchas que o violino gritava. Em êxtase, Natalie saiu de casa à procura do violinista. Esquecera a angústia de esperar Marlon. Tudo que queria naquele momento era descobrir a origem d...