Pular para o conteúdo principal

Postagens

Cidade de Vidro - Final.

19:47h - Oi, sou eu de novo. Tenho observado o movimento das ruas há três dias. Pretendia ficar nesse apartamento por mais tempo, mas já não há água. Preciso fazer algo para emboscar essa mulher que agora divide a Cidade de Vidro comigo. Talvez ela saiba de onde viemos e possa me tirar daqui. Talvez ela seja a origem de tantas estátuas. Quem quer que seja, me deve respostas. Eu a ouvi várias vezes. Oscilou entre grito e choro até andar em silêncio. Soava desesperada, mas desconfio ter sido um truque. Ela estava procurando alguém e eu sou a única aqui. Provavelmente queria que eu aparecesse em misericórdia. Não o fiz. No fim da tarde de ontem, ela encontrou minha casa. Consegui enxergar a silhueta correndo para o andar de cima do bar. Cabelo castanho na altura dos ombros. Fechou as cortinas como se soubesse estar sendo observada. As luzes ficaram ligadas a noite inteira. Tive a impressão de escutar uma das minhas fitas, mas não tenho certeza. Estamos longe demais. Estive es...

Ampulheta.

Quando a conheci já não restava muito tempo. Foi sofrido, confesso. Nunca tinha ouvido falar de um fenômeno tão doloroso. Encontrei-a já no chão e faltavam-lhe as pernas. Chorava como se alguém tivesse as arrancado, mas não havia sangue e éramos só nós dois. Ela não conseguia falar e eu não conseguia entender. Queria ajudar mas nada parecia ter acontecido. Foi então que uma brisa leve nos abraçou e a moça começou a se contorcer. Encarei seu corpo em confusão. Suas mãos dissolviam em migalhas com o vento. O susto levou à angústia, que levou ao desespero, que não levou a nada. Tentei juntar os farelos, mas foi em vão. Uns conseguiram encontrar o caminho de volta, outros já não eram nada além de memórias. Tentei segurá-la, mas a menina de areia desmanchou com meu toque. Gritamos, nós dois. Ela pela dor e eu pelo mais puro desespero de sentir alguém morrer e não conseguir evitar. A cada segundo mais partes se desfaziam e mais alto ela chorava. Seu olhar tinha urgência pelo epílogo. ...

Um dia comum.

Acordei com o despertador estridente. 7:15h. Era o último sábado do mês, então deveria arrumar a casa para as visitas. Sempre achei meio irônico que arrumássemos as coisas para os outros e nos dias cotidianos vivêssemos em paz na imundície.  Arrumei as camas, lavei os pratos, varri a varanda e os corredores. A poeira se acumula em uma velocidade mais alta do que a frequência das visitas. Alguns móveis já são tão encardidos que nem mesmo eu consigo recuperá-los.  As visitas não gostam de ser pontuais. Há vezes que aparecem antes do meio dia, há vezes que só depois do anoitecer. Tardam, mas nunca faltam. Cumpro todas as minhas tarefas muda. Costumo cantar porque dizem que cantar espanta os maus espíritos, mas não hoje. Hoje é dia de visitas.  A primeira chegou no início da tarde. Recebeu-me com algumas dores. Ela é sempre generosa na quantidade de presentes que traz. Costumo chamá-la de Presságio . Presságio preenche a casa como ninguém. Ela não suja nada, mas tira...

Cidade de Vidro - Parte 1.

- Hm... olá, eu acho. Não sei se isso funciona. Espero que alguém me escute um dia. Queria registrar minha passagem por aqui caso algo aconteça comigo. Acho que meu primeiro dia foi em setembro - haviam flores. Se em algum momento eu soube como cheguei aqui, já não me lembro. Se existi antes da Cidade de Vidro, esse alguém está morto. A esse ponto já não tenho muita noção de datas ou horas. Pela contagem de solstícios e equinócios devem ter se passado mais de dois anos. Em algum momento acordei em uma cama desconhecida em uma cidade desconhecida e então todo o passado tornou-se desconhecido. No início foi desesperador. O silêncio aqui às vezes me entorpece. Parece que a solidão total arranca algo de você. Até o ar é um pouco vazio. Lembro de tentar correr para longe e por um tempo tive a esperança de que chegaria a algum lugar ou a alguém, mas nunca aconteceu. Viver aqui não é de todo ruim. Eu tenho a comida de uma cidade inteira e toda a paz que possa desejar. Adotei o anda...

Lira.

Era uma tarde ensolarada de março. Lira estava trancada em seu quarto. Não havia uma alma viva disposta a conversar com ela. Nenhum de seus conhecidos era capaz de reservar cinco minutos de seu dia para trocar algumas mensagens. Cantava, porque o som da própria voz era menos solitário do que o silêncio. Nunca fora uma exímia pianista, muito menos uma cantora. Era tão medíocre nisso quanto em todos os outros hobbies que se metera a aprender. No entanto, a música a preenchia de uma forma especial. Por mais que não tivesse sido abençoada com o talento, dedicava algumas horas de seus dias ao piano elétrico amarelado. No meio de alguns gritos desafinados, Lira foi interrompida por um estrondo. Correu para a janela e abriu a cortina para observar. Nenhum sinal de desordem. Os vizinhos estavam calados, o sol aquecia suas bochechas e o único som externo era um cachorro latindo no quarteirão seguinte. Não deu importância ao barulho e voltou a tocar. Estava decidida a aprender Lábios ...

Epílogo.

há um vazio ingrato emanando em silêncio todos o reconhecem mas sua origem é um mistério o vazio é nauseante de tão doce parece pertencer a alguém que há muito se dilacera ou é vestígio de algo que se desfez com o tempo sendo a curiosidade meu motor, segui-o e por muitos passos o ambiente se forjou estável foi construído de forma a aparentar ser oco foi construído de forma a instigar a desistência havia algum tesouro lá com urgência de ser encontrado mas com medo então andei andei o que pareceu ser três mundos inteiros foi quando praticamente vencido pelo cansaço se revelou a mim uma silhueta feminina desgrenhada trêmula e com grandes olhos tão doce que quis vomitar questionei-a me diga, anã negra, é você a dona de toda essa solidão? encarou-me os olhos brilhavam mais do que qualquer pedra preciosa eram a única imagem viva do lugar e em um último e longo suspiro eles se fech...

Há quem veja beleza.

A brisa de verão é o último toque de calor a deixar meu corpo. Meus pelos respondem. Meu cabelo já não é nada senão um monte de cachos caídos por onde querem. O cheiro do sal me incomodava no início, mas hoje me acolhe como um parente. Talvez meu único parente. Eu nunca sei o que venho fazer aqui. Simplesmente há algo que me atrai. Juro todas as vezes que será a última, mas volto a cortar meus pés nessas mesmas conchas. Prometo: e ssa será a última. Talvez eu continue voltando porque é aqui onde meu desleixo tem paz. Meu desleixo é voz e pensamento. Sou eu, nua e ferida. Só. E só medito. Eu e meus sentidos. Sentidos esses que me traem como um bom amante.  O crível e o incrível são figuras dispersas.  A dor acalenta e não provoca lágrimas.  Os pés descalços não protestam pela urgência de um caminho.  Eles desistiram.  Todos os caminhos sempre trarão à mesma praia.  Praia essa que é suja. Talvez tenha sido bonita um dia, eu não sei. Está co...