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Marina.

Eram 22h de uma sexta-feira qualquer e meus olhos preguiçosos buscavam da janela do ônibus a esquina de casa. Eu mal reagia aos solavancos do caminho. Estava desenhada em mim a apatia de quem beirava à exaustão.  Quatro paradas depois, desci. Usei todo o resto de energia que eu nem sabia que restava em meu corpo para correr pela rua deserta. Entrei em meu apartamento como quem abria um baú de tesouro. Não pensei duas vezes antes de cair no sofá e respirar profundamente. Não queria pensar. Fiquei deitada por talvez quinze minutos. Meu celular vibrava sem parar do outro lado da sala. Mensagens de voz de um número desconhecido. “Estou com seus textos. Você esqueceu uma pasta no banco do ônibus. Achei seu número em um dos papéis, perdão por entrar em contato tão tarde”. Para ser sincera, era irrelevante. Todos os textos eram cópias de contos que já tinham sido recusados por pelo menos metade das editoras da cidade. A pasta era nada mais que uma lembrança física de minha me...

Ela.

(eu queria os seus olhos) a avistei ontem à noite enquanto dormia a brisa do vento apalpou meu rosto e sua voz rouca disse: não pare antes de ir, prometeu-me que nunca aquietaria queria ser metade da aventureira que ela é queria abraçar todas as pessoas do mundo e me sentir parte do universo como ela com ela ver bondade como ela vê ter vontade como ela tem ser simples só ser maior do que qualquer um e menor do que todos (peculiar) seria perverso pedí-la que fique seus pés descalços desconhecem fadiga flui - e não se esvaziará como noite, existe completa.

Celeste.

Celeste era uma figura formidável. Tinha uma firmeza particular nos gestos e cheirava sempre a erva-doce. Nós conversávamos sobre tudo. A mente dela era cheia de histórias. Costumava me contar vidas inteiras de pessoas que nunca existiram. Uma vez eu a machuquei. Foi quando descobri que sua pele era de seda. Foi como vários pequenos cristais quebrando ao mesmo tempo. Ela sorriu por entre muitas lágrimas. Quis disfarçar - eu aceitei. Celeste nunca deixou de ser formidável, mas naquele dia surgiu nela um olhar que eu desconhecia. Seguiu inventando pessoas porque esse era o seu mundo. Aos distraídos pareceria a mesma. A dor agora me faz entender que todas as novas pessoas eram eu e ela. Éramos sempre nós dois. Ela tentou me avisar. Deixou tudo nas entrelinhas. Inventou tantos outros nós quanto foi possível. Eu não aceitei. Não conseguiria ser nada além de mim mesmo. Eu tirei isso dela. Ela assumiu muitos nomes porque não sabia mais ser Celeste. Não queria ser Celeste. A indel...

Apartamento 402.

Moro nesse prédio há três anos. Nos dois primeiros tive a sensação de viver sozinha. Os corredores eram vazios. Os elevadores sempre parados no andar em que eu deixava. A garagem cheia de carros acumulando desgaste. A única alma viva era o porteiro que aparecia dia sim, dia não para limpar a escadaria. Foram dois longos anos.  Era incômodo ser a única moradora em sete andares. Certo ponto comecei a cumprimentar o prédio com bom dia  e boa noite  quando voltava para casa. Virou hábito. Eu me sentia sociável e por isso tornou-se irrelevante a falta de alguém. Acostumei.  Em um dia qualquer, conheci um vizinho. Foi tão improvável quanto natural. Observando minha chegada da janela do primeiro andar, Senhor Antônio respondeu meu cumprimento ao prédio como se fosse a ele. Ele mora aqui há vinte e cinco anos e vive recluso desde que sua esposa faleceu.  Senhor Antônio me cumprimentou por quase uma semana até me chamar para tomar café em sua casa. O apartamento...

Cidade de Vidro - Final.

19:47h - Oi, sou eu de novo. Tenho observado o movimento das ruas há três dias. Pretendia ficar nesse apartamento por mais tempo, mas já não há água. Preciso fazer algo para emboscar essa mulher que agora divide a Cidade de Vidro comigo. Talvez ela saiba de onde viemos e possa me tirar daqui. Talvez ela seja a origem de tantas estátuas. Quem quer que seja, me deve respostas. Eu a ouvi várias vezes. Oscilou entre grito e choro até andar em silêncio. Soava desesperada, mas desconfio ter sido um truque. Ela estava procurando alguém e eu sou a única aqui. Provavelmente queria que eu aparecesse em misericórdia. Não o fiz. No fim da tarde de ontem, ela encontrou minha casa. Consegui enxergar a silhueta correndo para o andar de cima do bar. Cabelo castanho na altura dos ombros. Fechou as cortinas como se soubesse estar sendo observada. As luzes ficaram ligadas a noite inteira. Tive a impressão de escutar uma das minhas fitas, mas não tenho certeza. Estamos longe demais. Estive es...

Ampulheta.

Quando a conheci já não restava muito tempo. Foi sofrido, confesso. Nunca tinha ouvido falar de um fenômeno tão doloroso. Encontrei-a já no chão e faltavam-lhe as pernas. Chorava como se alguém tivesse as arrancado, mas não havia sangue e éramos só nós dois. Ela não conseguia falar e eu não conseguia entender. Queria ajudar mas nada parecia ter acontecido. Foi então que uma brisa leve nos abraçou e a moça começou a se contorcer. Encarei seu corpo em confusão. Suas mãos dissolviam em migalhas com o vento. O susto levou à angústia, que levou ao desespero, que não levou a nada. Tentei juntar os farelos, mas foi em vão. Uns conseguiram encontrar o caminho de volta, outros já não eram nada além de memórias. Tentei segurá-la, mas a menina de areia desmanchou com meu toque. Gritamos, nós dois. Ela pela dor e eu pelo mais puro desespero de sentir alguém morrer e não conseguir evitar. A cada segundo mais partes se desfaziam e mais alto ela chorava. Seu olhar tinha urgência pelo epílogo. ...

Um dia comum.

Acordei com o despertador estridente. 7:15h. Era o último sábado do mês, então deveria arrumar a casa para as visitas. Sempre achei meio irônico que arrumássemos as coisas para os outros e nos dias cotidianos vivêssemos em paz na imundície.  Arrumei as camas, lavei os pratos, varri a varanda e os corredores. A poeira se acumula em uma velocidade mais alta do que a frequência das visitas. Alguns móveis já são tão encardidos que nem mesmo eu consigo recuperá-los.  As visitas não gostam de ser pontuais. Há vezes que aparecem antes do meio dia, há vezes que só depois do anoitecer. Tardam, mas nunca faltam. Cumpro todas as minhas tarefas muda. Costumo cantar porque dizem que cantar espanta os maus espíritos, mas não hoje. Hoje é dia de visitas.  A primeira chegou no início da tarde. Recebeu-me com algumas dores. Ela é sempre generosa na quantidade de presentes que traz. Costumo chamá-la de Presságio . Presságio preenche a casa como ninguém. Ela não suja nada, mas tira...