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Regina.

     Nossa história não começou exatamente em um barzinho ou uma tarde ensolarada. O relógio contava pouco antes das oito de uma manhã chuvosa e particularmente sem graça. Era o meu primeiro dia na reabilitação e eu só desejava ir embora. O tratamento tinha previsão de trinta dias - disseram ser o período adequado para assegurar que eu não voltaria a beber e fumar. Foi ali, por livre e espontânea pressão familiar, que conheci Regina.      Ela fez questão de se apresentar. Foi delicada. Sentou ao meu lado para me fazer companhia. Permaneci cabisbaixo por um tempo olhando para o prato de comida fria. Minha concentração estava toda em sua voz. Não demorou muito para que eu percebesse que se existissem dez maneiras de fazer algo, ela inventaria a décima primeira. E eu ainda nem tinha visto a figura.      Regina sabia falar e ouvir. Preencheu meu silêncio inicial com dicas de como sobreviver naquele lugar e soltou risos distraídos a quem quisesse ...

Amélia.

Fomos apresentadas quando eu tinha doze anos. Ela ainda era bem pequena e tinha os cabelos prateados. A vi em um reflexo distorcido no espelho do quarto. Só aparecia quando olhada de um certo ângulo e com um certo desejo. A moça vestia trajes diferentes quando eu piscava. Tive o impulso de piscar mais e mais rápido para apreciar a diversidade de cores e texturas que ela era capaz de inventar em milésimos de segundo. Fiquei tonta. Ela não pareceu notar. Permanecia imóvel e com um olhar perdido. Perguntei seu nome. Apontou graciosamente para os lábios costurados e depois para as têmporas. Ouvi minha própria voz dizer: “Não tenho um nome, só de dois dias sou” . Em minha inocência, chamei-a Amélia. Hoje escolheria um nome diferente. Tentei mostrá-la primeiro para minha mãe. Virei o espelho de diversos ângulos e pedi para que procurasse pela imagem da garota. Nada. Minha mãe chamou meu pai, que chamou a minha avó, que chamou a minha irmã. Todos tentaram entender a situação, mas não viram na...

Elena.

74 foi um dos anos mais curiosos da minha vida, se é que posso dizer assim. O caso dessa moça aconteceu quando fui contratado para remendar a barragem do rio de cima. O trabalho deveria durar três meses. O dinheiro não era muito, mas incluía um casebre razoavelmente perto da obra e uma moto usada. Bom negócio. A casa era apenas habitável. Moradia de passagem mesmo, zero conforto. Uns móveis poucos e paredes de concreto. O telhado precisava de conserto, molhava quando chovia. Na frente tinha um canto que eu chamava de varanda. Ventava bastante. De dia eu trabalhava e no anoitecer comia qualquer coisa numa venda e ia para casa. Ligava o rádio e ficava na varanda observando meus únicos vizinhos: um casal de uns 20 e poucos que tinha recém construído um lar ali no meio do nada. Nunca soube exatamente porque eles decidiram morar no campo. Na idade deles eu gostava mais de agitação. Era bem bonitinha a casa. Feita com cuidado. Viviam só os dois: Elena e Pedro. Ele era alto e tinha traço de q...

Ceci.

Nós nos conhecemos em dezembro de 91. Minha banda tinha acabado de lançar o primeiro álbum. Tínhamos shows agendados em quase todas as noites daquele mês. Milagrosamente não iríamos só abrir para outras bandas mais famosas e experientes - havia quem nos conhecesse e comprasse os ingressos na intenção de nos ver. Era a realização do sonho mais longínquo de todo garoto que passou a adolescência com uma guitarra usada tentando imitar os Rolling Stones . Ceci tinha acabado de chegar na cidade. Ainda estava organizando o apartamento de dois cômodos que seria sua casa pelos meses seguintes. Tinha poucas certezas. A maior delas era a liberdade. Não conhecia nada e nem ninguém ali. Não tinha um passado, poderia inventar a vida que quisesse. Estava feliz em ser anônima. Eu também não tinha muitas certezas. Quando a vi, ela se tornou uma. Estava tomando café em um bar/restaurante que ficava a duas quadras da minha casa. Ela fazia um esforço visível em tornar-se desinteressante, e quase conseguia...

Alice.

- Aqui nunca chove. Algo na chuva me deixava com saudade de casa, então parou de chover. Também nunca é dia. Costumava temer o escuro, mas descobri que não sei escrever em claro. Então parou de amanhecer. É bonito, mesmo assim. Aqui a lua clareia mais que o sol. É espaçoso, eu diria. Um mundo confortável para uma claustrofóbica. Antes haviam paredes, mas faziam uns barulhos estranhos com o vento. Aí derrubei. Eram desnecessárias, no fim das contas. Não tenho vizinhos e não chove - para que mais eu precisaria de paredes? Tinha também a questão do tempo. Antes a minha vista cansava quando eu escrevia demais. A coluna gritava com a má postura. Não conseguia andar dez metros sem ficar completamente exausta. O refluxo na mitral me envelheceu meio século em poucos anos. Poderia ter me adaptado lá, mas eu queria correr na praia. Aí decidi não voltar mais. Pensei que fosse me sentir mais solitária com a mudança. Às vezes sinto vontade de dançar uma valsa ou coisa assim, mas nada que meu espíri...

Íris.

As primeiras coisas que se notavam eram as mãos. Unhas mal pintadas e anéis prateados se contorcendo rapidamente para preparar os drinques de uma plateia sedenta. Sempre com o olhar baixo e respostas prontas para engraçadinhos. A vi de relance muitas vezes. Em todas tinha feições de quem não queria conversas. Íris era uma espécie de faz-tudo. Parece ter sido contratada como bartender, mas não era raro encontrá-la no caixa, nos controles de áudio ou impacientemente ajudando alguém que tinha se excedido na vodka. Eu não bebo - bebia por ela. O álcool me concedia o prazer de alguns poucos segundos de diálogo impessoal enquanto ela me ajudava a escolher meu pedido. Ela trabalhava no bar todas as noites. Nunca faltava. Disseram-me que estudava música e precisava do dinheiro para investir em sua carreira. Imaginei que quisesse ser cantora. Vivia com fones de ouvido no pescoço e se escondia neles nos dias menos movimentados. Demorou um mês para que eu conseguisse fazê-la me olhar nos olhos. P...

Rubi.

Cuidadosa em todos os detalhes. Metódica e pontual. Chegava em casa perto das 17h e acendia um incenso. Tomava banho nos fins de tarde com as luzes apagadas. Se já tivesse anoitecido, acendia velas. Vivia acompanhada de uma caixinha de som branca. Tenho a impressão de que escutava as mesmas músicas. Gostava de dançar sozinha. Deslizava pelos poucos metros do pequeno quarto-sala como se ali houvesse o espaço do mundo inteiro. Não havia. Às vezes se chocava com um móvel ou uma planta. Ria de si mesma e continuava. Era desajeitada nos passos e tinha consciência disso.  Não costumava receber visitas. Passava horas no telefone conversando com alguém que estava longe. Frequentemente desligava o celular, deitava no chão e chorava. Se ligassem novamente, se recompunha em dois tempos. Sorriso no rosto. Sorriso de quem não queria sorrir. Não sei dizer se era saudade. Doía - até de ver doía.  Tinha sempre os lábios vermelhos. Encarava o espelho na parede da sala por horas. Fal...