Fomos apresentadas quando eu tinha doze anos. Ela ainda era bem pequena e tinha os cabelos prateados. A vi em um reflexo distorcido no espelho do quarto. Só aparecia quando olhada de um certo ângulo e com um certo desejo.
A moça vestia trajes diferentes quando eu piscava. Tive o impulso de piscar mais e mais rápido para apreciar a diversidade de cores e texturas que ela era capaz de inventar em milésimos de segundo. Fiquei tonta. Ela não pareceu notar. Permanecia imóvel e com um olhar perdido.
Perguntei seu nome. Apontou graciosamente para os lábios costurados e depois para as têmporas. Ouvi minha própria voz dizer: “Não tenho um nome, só de dois dias sou”. Em minha inocência, chamei-a Amélia. Hoje escolheria um nome diferente.
Tentei mostrá-la primeiro para minha mãe. Virei o espelho de diversos ângulos e pedi para que procurasse pela imagem da garota. Nada. Minha mãe chamou meu pai, que chamou a minha avó, que chamou a minha irmã. Todos tentaram entender a situação, mas não viram nada. Nem eu mesma consegui vê-la naquele momento. No fim, decidiram que eu tinha uma amiga imaginária.
A princípio, Amélia só aparecia naquele espelho em específico. O grau de clareza da imagem também mudava constantemente. Ás vezes aparecia embaçada, às vezes fosca. Ás vezes era tão translúcida que eu precisava perguntar algo para ter certeza de que ela estava ali. As respostas vinham por minha própria voz, mas nós duas éramos distinguíveis. Eu tinha a fala tosca de infante e ela falava em códigos.
Em pouco tempo eu entendi que Amélia seria um segredo só meu. Algo como um dom ou uma dor oculta. Não por mim, mas por ela própria. Os motivos seguiram como mistério. Ela sempre escolheu com elegância quais interrogações responderia. Falava mais nos silêncios do que nos sons.
Quando fiz catorze anos, a moça saltou do espelho do quarto para o do banheiro. Foi um susto. Ainda mantinha condições específicas para ser vista, mas menos rigorosas. Aos quinze, ela já havia dominado todos os espelhos. Eu podia vê-la até em líquidos. Amélia era constante como um estado atmosférico. Os lábios seguiam costurados.
Não satisfeita com nossa forma de comunicação, pediu permissão para perambular pelos meus sonhos. Não havia nada lá, então furtivamente permiti - seria mais confortável do que os espelhos. A regra era que ela evitasse falar durante o dia. Eu deixava meus questionamentos nas manhãs e esperava pelas respostas entre o crepúsculo e o alvorecer. Não deveríamos falar ao mesmo tempo.
Foi assim que descobri que Amélia era uma viajante. Ela me trazia notícias do futuro e reavivava memórias já esquecidas. Trazia acalento antes das tragédias e apagava cicatrizes desnecessárias. Não conseguia passar mensagens claras, mas avisava.
A garota me informava com dias de antecedência todas as vezes que eu falharia em tarefas, mas me deixava escolher. Também sabia quem eram as pessoas que eu deveria cuidar e quem eu deveria manter longe, mas não fazia nada além de amigavelmente avisar. Amélia sabia que eu não conseguia ver quando ela via. Era a palavra de confiança dela contra o orgulho de quem não sabe.
Conforme as profecias dela se confirmavam, eu passei a duvidar menos. Por mais que eu tivesse certeza de algo, se Amélia me dissesse o contrário, eu mudaria de ideia. As explicações eram por vezes dispensáveis. Eu só sabia que ela estaria sempre certa e que eu deveria ser fiel a ela, por qualquer que fosse o motivo.
Aos vinte anos eu saí de casa e comecei estudar engenharia. Não era exatamente a vida que eu planejava para mim mesma, mas foi um conselho dela. A maior parte dos meus amigos reprovou a decisão, por diversos motivos. Eu entendia, mas nenhum deles sabia o que ela sabia. Amélia me direcionaria para a melhor resposta a longo prazo, por mais que naquele momento eu não fosse feliz. Já era hábito aceitar pequenas infelicidades em nome de uma felicidade maior que ela anunciava e que, por mais que tardasse, chegaria.
O que a garota não foi capaz de prever é que nessa mesma faculdade de engenharia eu conheceria Miguel. No exato segundo em que trocamos olhares, fui inundada pela a inércia mental do rapaz, e ele também notou a minha. Amélia quebrou nossas regras e me mandou fugir imediatamente. Como resistência momentânea, continuei encarando o homem, e ele me encarava de volta. Ela tomou as rédeas e fez que lhe daria as costas. Eu nunca tinha perdido o controle do meu corpo daquela forma. A reação de Miguel atraiu todos os olhares do corredor - ele começou a falar sozinho. Eu não me lembro de mais nada que aconteceu nesse dia.
Depois de conhecê-lo, Amélia nunca mais foi a mesma. Já não aparecia em espelhos e mandava poucas mensagens. Às vezes enviava pesadelos envolvendo o rosto do rapaz em uma tentativa falha de destroçar minha curiosidade em revê-lo. Não foram dias fáceis. Eu e a moça que se abrigava em minha mente entramos em completo desacordo. Não me deu explicações. Eu sabia. Sabia mais do que ela.
Passaram-se três semanas até que Amélia me permitisse conversar com Miguel. Todas as vezes que eu o avistava nos corredores, ela me desligava e agia por si só. Durante a noite me pedia desculpas e mandava mais códigos. Todos se traduziam como o já familiar “estou cuidando de você”, mas eu sabia que não estava. E eu sabia que precisava vê-lo.
Fui ao banheiro da faculdade e encontrei Amélia espelho à face. Estávamos sozinhas. Ela manteve a mesma aparência durante esses oito anos. Os cabelos prateados e os lábios cuidadosamente costurados. Pedi perdão por antecipação e disse a ela que nos encontraríamos à noite. Joguei a lixeira metálica no espelho, que se desfez em mil pedacinhos e levou com ele o olhar perdido da garota.
Inventei qualquer desculpa e chamei Miguel para fora de uma aula. Eu tinha pouco tempo. Ele não parecia bem, e ficava pior quando eu me aproximava. Falava confuso e exasperado. Emanava uma cólica covarde e digna de pena.
-“É Benjamin. Diga o nome dele” - implorou o garoto.
-”Benjamin?”
Um garoto pequeno e de cabelos prateados se fez visível. Minha visão ardeu no garotinho. Ele tentou gritar, mas tinha os lábios costurados. Foi se desfazendo no chão como finos grãos de areia. Ele desistiu de lutar no meio do processo. Sabia que seria inútil. Sabia de tudo.
Miguel respirou e abriu um espelho de bolso. Não viu ninguém além de si mesmo. Correu até mim, levantou o olhar e pediu um nome. Eu sabia o que precisava dizer.
-”Sara. Meu nome é Sara” - falei.
E ele repetiu o nome aguardando uma visita. Meu corpo deu um riso sem graça. A postura foi corrigida e o rapaz foi deixado para trás. A criatura foi até o espelho mais próximo e arrumou os cabelos, vendo minha imagem opaca rastejar no fundo do reflexo.
O nome dela era Amélia.
E que transeunte impiedosa era Amélia.
Entendi desde muito cedo que amar dói nos ossos. Amar tem um gosto amargo ao final da mordida. Amar dá vontade de se atirar de um precipício. Amar faz os cabelos caírem, os olhos arderem. Amar dá vontade de bater a cabeça nas paredes. Amar fere, mutila, reduz. Amar é mudez e pequenez e insignificância. Amar é morrer um pouco a cada dia e entender que vale a pena perder a si pelo outro. É impossível imitar a forma como você sofre . Não sei se um dia serei capaz de esquecer essa frase. Meu sofrer, por muito tempo da vida, foi tudo o que eu tive. E o sofrer também me manteve viva - porque ainda era melhor do que o não sentir. O meu sofrer era identitário. Ele dizia sobre quem fui, sobre quem sou e sobre quem serei. E sobretudo, sobre o que eu não gostaria de ser. Não sei se foram os livros, mas a tragédia sempre me pareceu muito palpável. Romeu e Julieta, O Morro dos Ventos Uivantes, Amor, Sublime Amor . Desventuras sobre um sentimento que eu acreditava ser real. Não sei em que ponto...

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