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Limbo.

Ouroboros.

 

Minerva.

Vi no jornal da manhã que o mundo acabaria hoje. Não lembro ao certo se por invasão alienígena ou alguma data marcada por profecias de povos antigos. Foi logo depois de uma reportagem sobre fazendas sustentáveis, e minha mente ficou apegada aos vídeos das vaquinhas correndo felizes. Sem saber que seriam abatidas em seguida, então felizes. O comércio de carne bovina nunca cansa de me surpreender. De qualquer forma, não importa. O jornal disse que o mundo acabaria hoje, 28 de maio, e agora preciso me organizar.  Lembro vividamente da primeira vez que ouvi um anúncio de fim de mundo. Passei pelo menos uma semana sem conseguir dormir à noite, imaginando que meu sono seria perturbado por explosões, chamas, alagamentos ou tiros. Criei também uma regra de não descer para a varanda de casa depois das 19h, porque os alienígenas provavelmente pousariam ali e eu seria o primeiro alvo. O medo - associado às alucinações - chegou a proporcionar uma aparição de OVNI no quintal da minha casa. Com ...

Morgana.

Ode aos ponteiros. Foge de minha compreensão o quanto a vida de alguém pode mudar. Não há perspectiva, planejamento, escolhas e restrições que sejam imunes à delicadeza da imprevisibilidade. Tinha o hábito de fazer listas. Uma dizia sobre cortes de cabelo que gostaria de ter em algum momento, outra sobre ações que pretendia fazer antes de morrer. Pular de paraquedas, nadar com golfinhos, fotografar animais silvestres, visitar o México, esquiar na neve. Morri diversas vezes e ainda não completei um item sequer. Poderia discorrer porém sobre uma imensidão de cenas que jurei nunca viver e vivi. Com direito a andar numa viatura policial e me tornar um projeto de quem minhas versões mais jovens lutavam para não ser.  São duas horas da manhã, o que uma eu de ontem chamaria de meu horário. Tentativa não tão falha de ressignificar o que outrora descrevi como madrugadas são muito solitárias. Aparentemente um dos poucos fatos imutáveis sobre o sujeito eu é justamente estar ativa enquanto os...

Marisa.

21º Departamento de Polícia Caso Marisa Testemunha Silas Melo - Diga seu nome e pode começar. - Já está gravando? Tudo bem. Sou Silas. Silas Melo. Não sei se serei de muita ajuda. Marisa era a única pessoa a frequentar as áreas comuns do prédio em que morávamos. A vida corrida que as megalópoles proporcionam a seus habitantes não deixa muito tempo livre para que os moradores possam usufruir da estrutura inclusa nos milhares em aluguel. Eu costumava observá-la escrevendo da varanda do meu apartamento. Quando não estava lá, poderia ser encontrada ouvindo algo inaudível na beira da piscina ou perto dos jardins. Se estivesse em seu apartamento, também seria possível localizá-la. Eu conseguia sentir os incensos e velas aromáticas da janela do andar de cima. Às vezes também escutava seus risos e gritos de frustração. Marisa morava sozinha - até onde eu sabia - mas um visitante despercebido poderia ter a impressão de uma família inteira lá em cima. Eu nunca tive a oportunidade de conversar co...

Regina.

     Nossa história não começou exatamente em um barzinho ou uma tarde ensolarada. O relógio contava pouco antes das oito de uma manhã chuvosa e particularmente sem graça. Era o meu primeiro dia na reabilitação e eu só desejava ir embora. O tratamento tinha previsão de trinta dias - disseram ser o período adequado para assegurar que eu não voltaria a beber e fumar. Foi ali, por livre e espontânea pressão familiar, que conheci Regina.      Ela fez questão de se apresentar. Foi delicada. Sentou ao meu lado para me fazer companhia. Permaneci cabisbaixo por um tempo olhando para o prato de comida fria. Minha concentração estava toda em sua voz. Não demorou muito para que eu percebesse que se existissem dez maneiras de fazer algo, ela inventaria a décima primeira. E eu ainda nem tinha visto a figura.      Regina sabia falar e ouvir. Preencheu meu silêncio inicial com dicas de como sobreviver naquele lugar e soltou risos distraídos a quem quisesse ...

Amélia.

Fomos apresentadas quando eu tinha doze anos. Ela ainda era bem pequena e tinha os cabelos prateados. A vi em um reflexo distorcido no espelho do quarto. Só aparecia quando olhada de um certo ângulo e com um certo desejo. A moça vestia trajes diferentes quando eu piscava. Tive o impulso de piscar mais e mais rápido para apreciar a diversidade de cores e texturas que ela era capaz de inventar em milésimos de segundo. Fiquei tonta. Ela não pareceu notar. Permanecia imóvel e com um olhar perdido. Perguntei seu nome. Apontou graciosamente para os lábios costurados e depois para as têmporas. Ouvi minha própria voz dizer: “Não tenho um nome, só de dois dias sou” . Em minha inocência, chamei-a Amélia. Hoje escolheria um nome diferente. Tentei mostrá-la primeiro para minha mãe. Virei o espelho de diversos ângulos e pedi para que procurasse pela imagem da garota. Nada. Minha mãe chamou meu pai, que chamou a minha avó, que chamou a minha irmã. Todos tentaram entender a situação, mas não viram na...