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Mostrando postagens de novembro, 2026

Pretérito.

há um vazio ingrato emanando em silêncio um pulso descontínuo em tons de gris inaudível, se comunica por códigos  códigos esses intraduzíveis, inocentes e inflamáveis se o vazio pudesse gritar, ele diria algo como "deixe-me" o que facilmente poderia significar "não me deixe só" mas o processo de significação com frequência se perde  entre as precipitações e os precipícios dobrei em uma esquina errada há tempos atrás mas mesmo enxergando o caminho lamacento e torto não pude e não posso retroceder não tenho destino e os que não o tem podem habitar qualquer estrada busquei acalento em minha própria voz sentei com paciência para escutar o que dizia choramingou por alguns minutos tirou um pigarro da garganta e disse: "me diga, anã negra, é você a dona de toda essa solidão?" encarei um espelho e procurei respostas os olhos denunciavam noites insones e por baixo do cansaço evidenciavam uma insanidade intrínseca total e completa desconexão com os arredores olhos q...

Parábola.

pairava a poucos centímetros do chão em um descampado alaranjado uma redoma de bronze de três metros de diâmetro com duas mulheres de cabelos escuros dentro de fora nada se ouvia nada se movia e poderia se dizer que ninguém existia lá dentro pois não havia voz ou imagem qualquer mas as duas mulheres de cabelos escuros discutiam em alto tom trocavam olhares maliciosos anulavam os credos uma da outra  e competiam constantemente pela voz que mais berrasse a de olhos claros era sorrateira como uma cobra a maior fobia da de olhos escuros era qualquer tipo de serpente a de olhos escuros era confiante como uma leoa  a de olhos claros sabia ter pendido para raposa inevitavelmente opostas predadoras uma da outra as duas mulheres de cabelos escuros se agrediam não havia espaço suficiente em uma única redoma de bronze para que as duas florescessem  então separaram-nas  e todos clamaram: "terão paz!" mas faziam parte uma da outra e ainda agressivas precisavam habitar a mesma red...

Oblívio.

em uma altura dessas sinto a brisa bagunçar meus cachos e tento me lembrar das últimas vezes em que fui tão dona do meu caminho fumo o meu último cigarro acendo um incenso de camomila para disfarçar conto a quantidade de luzes acesas no prédio vizinho e no ao lado desse e no próximo até que sinto uma vontade de gritar é quando percebo a hora de fechar as cortinas coloco uma música familiar e danço a mesma dança que dançava antes o robe engancha nos móveis os pés tropeçam bêbados separo uma vela roxa com as mãos trêmulas faço minha prece e aguardo por um milagre? não exatamente acredito em milagres não exatamente acredito em qualquer coisa que seja mas é natural do ser humano implorar então encaro a vela e penso no que meu âmago deseja nada acontece percebendo a juvenilidade do equívoco dou um sopro e volto para o quarto sento no piano e toco músicas até os pulsos arderem canto porque é a única voz que tenho termino suando frio com a sensação claustrofóbica de ter se trancado em um pequ...