há um vazio ingrato emanando em silêncio
um pulso descontínuo em tons de gris
inaudível, se comunica por códigos
códigos esses intraduzíveis, inocentes e inflamáveis
se o vazio pudesse gritar, ele diria algo como "deixe-me"
o que facilmente poderia significar "não me deixe só"
mas o processo de significação com frequência se perde
entre as precipitações e os precipícios
dobrei em uma esquina errada há tempos atrás
mas mesmo enxergando o caminho lamacento e torto
não pude e não posso retroceder
não tenho destino
e os que não o tem podem habitar qualquer estrada
busquei acalento em minha própria voz
sentei com paciência para escutar o que dizia
choramingou por alguns minutos
tirou um pigarro da garganta e disse:
"me diga, anã negra, é você a dona de toda essa solidão?"
encarei um espelho e procurei respostas
os olhos denunciavam noites insones
e por baixo do cansaço evidenciavam uma insanidade intrínseca
total e completa desconexão com os arredores
olhos que viram demais
as marcas do passado berravam em meu corpo
escancaravam as faltas
ardiam lembranças hoje débeis
de uma figura que tenho dificuldade em reconhecer
se pudesse voltar no tempo por cinco segundos
daria a mim o abraço que precisava
e torceria para que fosse o suficiente
mas sabendo quem sou
certamente não saberia recebê-lo
alguns vazios são incomensuráveis.

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