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Oblívio.

em uma altura dessas sinto a brisa bagunçar meus cachos

e tento me lembrar das últimas vezes em que fui tão dona do meu caminho


fumo o meu último cigarro

acendo um incenso de camomila para disfarçar

conto a quantidade de luzes acesas no prédio vizinho

e no ao lado desse

e no próximo

até que sinto uma vontade de gritar

é quando percebo a hora de fechar as cortinas


coloco uma música familiar e danço

a mesma dança que dançava antes

o robe engancha nos móveis

os pés tropeçam bêbados

separo uma vela roxa com as mãos trêmulas

faço minha prece e aguardo


por um milagre?

não exatamente acredito em milagres

não exatamente acredito em qualquer coisa que seja

mas é natural do ser humano implorar

então encaro a vela e penso no que meu âmago deseja

nada acontece

percebendo a juvenilidade do equívoco

dou um sopro e volto para o quarto


sento no piano e toco músicas até os pulsos arderem

canto porque é a única voz que tenho

termino suando frio

com a sensação claustrofóbica de ter se trancado em um pequeno lugar

lugar esse que ninguém acessa

que ninguém sai e ninguém entra

onde as paredes são à prova de som

e as flores se penduram meio mortas em um jarro sem atenção


em uma altura dessas sinto a brisa bagunçar meus cachos

e tento me lembrar das últimas vezes em que fui tão dona do meu caminho

e a verdade é que não me lembro

porque nunca quis ser dona de nada

e caminha quem sabe onde quer ir 

quem só existe habita um espaço estagnado

repleto de pequenos pedaços de sentido

fazendo preces ao universo visível

e recebendo de volta o silêncio sepulcral. 


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