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Stella.

Entendi desde muito cedo que amar dói nos ossos. Amar tem um gosto amargo ao final da mordida. Amar dá vontade de se atirar de um precipício. Amar faz os cabelos caírem, os olhos arderem. Amar dá vontade de bater a cabeça nas paredes. Amar fere, mutila, reduz. Amar é mudez e pequenez e insignificância. Amar é morrer um pouco a cada dia e entender que vale a pena perder a si pelo outro.  É impossível imitar a forma como você sofre . Não sei se um dia serei capaz de esquecer essa frase. Meu sofrer, por muito tempo da vida, foi tudo o que eu tive. E o sofrer também me manteve viva - porque ainda era melhor do que o não sentir. O meu sofrer era identitário. Ele dizia sobre quem fui, sobre quem sou e sobre quem serei. E sobretudo, sobre o que eu não gostaria de ser. Não sei se foram os livros, mas a tragédia sempre me pareceu muito palpável. Romeu e Julieta, O Morro dos Ventos Uivantes, Amor, Sublime Amor . Desventuras sobre um sentimento que eu acreditava ser real. Não sei em que ponto...

Denise.

Era uma quarta-feira comum de outono. Acordei com preguiça. Tentei listar os afazeres do dia - nada em particular. Tomei os meus remédios, troquei o pijama. Meu marido havia saído antes que eu despertasse e meu cachorro aparentemente tinha dormido fora do quarto. Desci para buscá-lo, e no meio das escadas escutei o barulho da porta da frente abrindo. Entrou uma mulher cabisbaixa, com uma vassoura nas mãos, e sem me olhar começou a varrer o teto da sala. Não havia sinal do meu cachorro. A mulher varria o teto com tamanha naturalidade que por um momento pensei ter sido contratada pelo meu marido, e que talvez ele tivesse esquecido de me informar. Seus cabelos escuros pareciam sujos, como se não lavados há semanas. Usava roupas acinzentadas em um número muito maior que o dela. Era esguia e tinha a postura curvada. Não saberia estimar uma idade. De longe, observei que tinha os cantos da boca levemente levantados, como se achasse graça em algo. Pareceu disfarçar quanto sentiu meu olhar. Tom...

Adam.

foram exatos dois anos cinco meses e vinte e dois longos dias até que pudesse retornar para casa em todos os segundos recordei-me do som de sua voz dos dizeres poéticos do sotaque etílico dos dentes desalinhados das graças que eram intrínsecas a ela meus lábios lembravam do gosto meus olhos ansiavam pelos cabelos escuros meus dedos sabiam o mapa perfeito de sua pele tudo sobre ela era meu e eu fui inteiro dela foram exatos dois anos cinco meses e vinte e dois longos dias até que pudesse retornar para casa sentado na calçada pensei no que dizer em como explicar justificar inventar uma forma de dizê-la que nunca quis machucá-la que ela não tinha culpa de minha iniquidade que soçobrei ao desespero que não houve intenção de desgraçá-la  e mesmo consciente de que nenhum roteiro me salvaria toquei a campainha com dedos trêmulos (foram exatos dois anos) aguardei o que pareceu uma eternidade e nenhum olhar conhecido me atendeu (cinco meses) eis que com um sopro de coragem bato à porta esmu...

Limbo.

Ouroboros.

 

Minerva.

Vi no jornal da manhã que o mundo acabaria hoje. Não lembro ao certo se por invasão alienígena ou alguma data marcada por profecias de povos antigos. Foi logo depois de uma reportagem sobre fazendas sustentáveis, e minha mente ficou apegada aos vídeos das vaquinhas correndo felizes. Sem saber que seriam abatidas em seguida, então felizes. O comércio de carne bovina nunca cansa de me surpreender. De qualquer forma, não importa. O jornal disse que o mundo acabaria hoje, 28 de maio, e agora preciso me organizar.  Lembro vividamente da primeira vez que ouvi um anúncio de fim de mundo. Passei pelo menos uma semana sem conseguir dormir à noite, imaginando que meu sono seria perturbado por explosões, chamas, alagamentos ou tiros. Criei também uma regra de não descer para a varanda de casa depois das 19h, porque os alienígenas provavelmente pousariam ali e eu seria o primeiro alvo. O medo - associado às alucinações - chegou a proporcionar uma aparição de OVNI no quintal da minha casa. Com ...

Morgana.

Ode aos ponteiros. Foge de minha compreensão o quanto a vida de alguém pode mudar. Não há perspectiva, planejamento, escolhas e restrições que sejam imunes à delicadeza da imprevisibilidade. Tinha o hábito de fazer listas. Uma dizia sobre cortes de cabelo que gostaria de ter em algum momento, outra sobre ações que pretendia fazer antes de morrer. Pular de paraquedas, nadar com golfinhos, fotografar animais silvestres, visitar o México, esquiar na neve. Morri diversas vezes e ainda não completei um item sequer. Poderia discorrer porém sobre uma imensidão de cenas que jurei nunca viver e vivi. Com direito a andar numa viatura policial e me tornar um projeto de quem minhas versões mais jovens lutavam para não ser.  São duas horas da manhã, o que uma eu de ontem chamaria de meu horário. Tentativa não tão falha de ressignificar o que outrora descrevi como madrugadas são muito solitárias. Aparentemente um dos poucos fatos imutáveis sobre o sujeito eu é justamente estar ativa enquanto os...

Marisa.

21º Departamento de Polícia Caso Marisa Testemunha Silas Melo - Diga seu nome e pode começar. - Já está gravando? Tudo bem. Sou Silas. Silas Melo. Não sei se serei de muita ajuda. Marisa era a única pessoa a frequentar as áreas comuns do prédio em que morávamos. A vida corrida que as megalópoles proporcionam a seus habitantes não deixa muito tempo livre para que os moradores possam usufruir da estrutura inclusa nos milhares em aluguel. Eu costumava observá-la escrevendo da varanda do meu apartamento. Quando não estava lá, poderia ser encontrada ouvindo algo inaudível na beira da piscina ou perto dos jardins. Se estivesse em seu apartamento, também seria possível localizá-la. Eu conseguia sentir os incensos e velas aromáticas da janela do andar de cima. Às vezes também escutava seus risos e gritos de frustração. Marisa morava sozinha - até onde eu sabia - mas um visitante despercebido poderia ter a impressão de uma família inteira lá em cima. Eu nunca tive a oportunidade de conversar co...

Regina.

     Nossa história não começou exatamente em um barzinho ou uma tarde ensolarada. O relógio contava pouco antes das oito de uma manhã chuvosa e particularmente sem graça. Era o meu primeiro dia na reabilitação e eu só desejava ir embora. O tratamento tinha previsão de trinta dias - disseram ser o período adequado para assegurar que eu não voltaria a beber e fumar. Foi ali, por livre e espontânea pressão familiar, que conheci Regina.      Ela fez questão de se apresentar. Foi delicada. Sentou ao meu lado para me fazer companhia. Permaneci cabisbaixo por um tempo olhando para o prato de comida fria. Minha concentração estava toda em sua voz. Não demorou muito para que eu percebesse que se existissem dez maneiras de fazer algo, ela inventaria a décima primeira. E eu ainda nem tinha visto a figura.      Regina sabia falar e ouvir. Preencheu meu silêncio inicial com dicas de como sobreviver naquele lugar e soltou risos distraídos a quem quisesse ...

Amélia.

Fomos apresentadas quando eu tinha doze anos. Ela ainda era bem pequena e tinha os cabelos prateados. A vi em um reflexo distorcido no espelho do quarto. Só aparecia quando olhada de um certo ângulo e com um certo desejo. A moça vestia trajes diferentes quando eu piscava. Tive o impulso de piscar mais e mais rápido para apreciar a diversidade de cores e texturas que ela era capaz de inventar em milésimos de segundo. Fiquei tonta. Ela não pareceu notar. Permanecia imóvel e com um olhar perdido. Perguntei seu nome. Apontou graciosamente para os lábios costurados e depois para as têmporas. Ouvi minha própria voz dizer: “Não tenho um nome, só de dois dias sou” . Em minha inocência, chamei-a Amélia. Hoje escolheria um nome diferente. Tentei mostrá-la primeiro para minha mãe. Virei o espelho de diversos ângulos e pedi para que procurasse pela imagem da garota. Nada. Minha mãe chamou meu pai, que chamou a minha avó, que chamou a minha irmã. Todos tentaram entender a situação, mas não viram na...

Elena.

74 foi um dos anos mais curiosos da minha vida, se é que posso dizer assim. O caso dessa moça aconteceu quando fui contratado para remendar a barragem do rio de cima. O trabalho deveria durar três meses. O dinheiro não era muito, mas incluía um casebre razoavelmente perto da obra e uma moto usada. Bom negócio. A casa era apenas habitável. Moradia de passagem mesmo, zero conforto. Uns móveis poucos e paredes de concreto. O telhado precisava de conserto, molhava quando chovia. Na frente tinha um canto que eu chamava de varanda. Ventava bastante. De dia eu trabalhava e no anoitecer comia qualquer coisa numa venda e ia para casa. Ligava o rádio e ficava na varanda observando meus únicos vizinhos: um casal de uns 20 e poucos que tinha recém construído um lar ali no meio do nada. Nunca soube exatamente porque eles decidiram morar no campo. Na idade deles eu gostava mais de agitação. Era bem bonitinha a casa. Feita com cuidado. Viviam só os dois: Elena e Pedro. Ele era alto e tinha traço de q...

Ceci.

Nós nos conhecemos em dezembro de 91. Minha banda tinha acabado de lançar o primeiro álbum. Tínhamos shows agendados em quase todas as noites daquele mês. Milagrosamente não iríamos só abrir para outras bandas mais famosas e experientes - havia quem nos conhecesse e comprasse os ingressos na intenção de nos ver. Era a realização do sonho mais longínquo de todo garoto que passou a adolescência com uma guitarra usada tentando imitar os Rolling Stones . Ceci tinha acabado de chegar na cidade. Ainda estava organizando o apartamento de dois cômodos que seria sua casa pelos meses seguintes. Tinha poucas certezas. A maior delas era a liberdade. Não conhecia nada e nem ninguém ali. Não tinha um passado, poderia inventar a vida que quisesse. Estava feliz em ser anônima. Eu também não tinha muitas certezas. Quando a vi, ela se tornou uma. Estava tomando café em um bar/restaurante que ficava a duas quadras da minha casa. Ela fazia um esforço visível em tornar-se desinteressante, e quase conseguia...

Alice.

- Aqui nunca chove. Algo na chuva me deixava com saudade de casa, então parou de chover. Também nunca é dia. Costumava temer o escuro, mas descobri que não sei escrever em claro. Então parou de amanhecer. É bonito, mesmo assim. Aqui a lua clareia mais que o sol. É espaçoso, eu diria. Um mundo confortável para uma claustrofóbica. Antes haviam paredes, mas faziam uns barulhos estranhos com o vento. Aí derrubei. Eram desnecessárias, no fim das contas. Não tenho vizinhos e não chove - para que mais eu precisaria de paredes? Tinha também a questão do tempo. Antes a minha vista cansava quando eu escrevia demais. A coluna gritava com a má postura. Não conseguia andar dez metros sem ficar completamente exausta. O refluxo na mitral me envelheceu meio século em poucos anos. Poderia ter me adaptado lá, mas eu queria correr na praia. Aí decidi não voltar mais. Pensei que fosse me sentir mais solitária com a mudança. Às vezes sinto vontade de dançar uma valsa ou coisa assim, mas nada que meu espíri...

Íris.

As primeiras coisas que se notavam eram as mãos. Unhas mal pintadas e anéis prateados se contorcendo rapidamente para preparar os drinques de uma plateia sedenta. Sempre com o olhar baixo e respostas prontas para engraçadinhos. A vi de relance muitas vezes. Em todas tinha feições de quem não queria conversas. Íris era uma espécie de faz-tudo. Parece ter sido contratada como bartender, mas não era raro encontrá-la no caixa, nos controles de áudio ou impacientemente ajudando alguém que tinha se excedido na vodka. Eu não bebo - bebia por ela. O álcool me concedia o prazer de alguns poucos segundos de diálogo impessoal enquanto ela me ajudava a escolher meu pedido. Ela trabalhava no bar todas as noites. Nunca faltava. Disseram-me que estudava música e precisava do dinheiro para investir em sua carreira. Imaginei que quisesse ser cantora. Vivia com fones de ouvido no pescoço e se escondia neles nos dias menos movimentados. Demorou um mês para que eu conseguisse fazê-la me olhar nos olhos. P...

Rubi.

Cuidadosa em todos os detalhes. Metódica e pontual. Chegava em casa perto das 17h e acendia um incenso. Tomava banho nos fins de tarde com as luzes apagadas. Se já tivesse anoitecido, acendia velas. Vivia acompanhada de uma caixinha de som branca. Tenho a impressão de que escutava as mesmas músicas. Gostava de dançar sozinha. Deslizava pelos poucos metros do pequeno quarto-sala como se ali houvesse o espaço do mundo inteiro. Não havia. Às vezes se chocava com um móvel ou uma planta. Ria de si mesma e continuava. Era desajeitada nos passos e tinha consciência disso.  Não costumava receber visitas. Passava horas no telefone conversando com alguém que estava longe. Frequentemente desligava o celular, deitava no chão e chorava. Se ligassem novamente, se recompunha em dois tempos. Sorriso no rosto. Sorriso de quem não queria sorrir. Não sei dizer se era saudade. Doía - até de ver doía.  Tinha sempre os lábios vermelhos. Encarava o espelho na parede da sala por horas. Fal...

Miriam.

23:48h. Silêncio total. Girei as chaves com cuidado e entrei em casa. Nenhuma luz acesa. Se minhas preces fossem ouvidas, ela estaria dormindo. Seria mais fácil me justificar pela manhã. Só tive o tempo de abaixar para tirar os sapatos. Ainda sem levantar o rosto, escutei sua respiração. Havia uma silhueta elegante na porta da varanda. Cabelos presos, olhar vazio. O vestido branco pairava calmamente com o vento. Miriam sempre teve uma presença indesvendável que parecia fazê-la levitar. - Reunião de última hora no trabalho. Não tive como telefonar. Foi uma urgência. - anunciei, já imaginando os questionamentos que viriam.  Sem resposta. Não se deu o trabalho de mover um músculo. Era possível sentir sua raiva do outro lado do cômodo. Miriam costumava ser explosiva. Dizia o que pensava até que eu estivesse de joelhos em seus pés. Sempre com requinte. Dessa vez, havia algo diferente. Continuei congelado na porta como quem foi pego em flagrante.  - Você pode perguntar ...

Gitano.

Rostos e olhos e corpos. Não dizem - exalam dizeres. Somam-se gestos e poesias e cantigas. Omito: sou colecionador de bem-quereres.  Este é meu universo. Onde os ventos são fortes e a chuva nunca tarda a cair. Onde sempre há uma xícara de café por esperar. Divino e medíocre. Certo. E então, engano. Cruel engano este que amaldiçoei a mim mesmo. Sorrateiramente farsa, depois dúvida, mas sempre farsa. Solitude, também. Toda farsa tem essência em solitude.  No fim, pouco sobra. Desfazem-se os rostos e olhos e corpos. Subtraem-se os gestos e poesias e cantigas. Fica o café. Divino e medíocre. Etéreo.  Tragam-me livros: não há mais mãos para ler.

Marina.

Eram 22h de uma sexta-feira qualquer e meus olhos preguiçosos buscavam da janela do ônibus a esquina de casa. Eu mal reagia aos solavancos do caminho. Estava desenhada em mim a apatia de quem beirava à exaustão.  Quatro paradas depois, desci. Usei todo o resto de energia que eu nem sabia que restava em meu corpo para correr pela rua deserta. Entrei em meu apartamento como quem abria um baú de tesouro. Não pensei duas vezes antes de cair no sofá e respirar profundamente. Não queria pensar. Fiquei deitada por talvez quinze minutos. Meu celular vibrava sem parar do outro lado da sala. Mensagens de voz de um número desconhecido. “Estou com seus textos. Você esqueceu uma pasta no banco do ônibus. Achei seu número em um dos papéis, perdão por entrar em contato tão tarde”. Para ser sincera, era irrelevante. Todos os textos eram cópias de contos que já tinham sido recusados por pelo menos metade das editoras da cidade. A pasta era nada mais que uma lembrança física de minha me...

Ela.

(eu queria os seus olhos) a avistei ontem à noite enquanto dormia a brisa do vento apalpou meu rosto e sua voz rouca disse: não pare antes de ir, prometeu-me que nunca aquietaria queria ser metade da aventureira que ela é queria abraçar todas as pessoas do mundo e me sentir parte do universo como ela com ela ver bondade como ela vê ter vontade como ela tem ser simples só ser maior do que qualquer um e menor do que todos (peculiar) seria perverso pedí-la que fique seus pés descalços desconhecem fadiga flui - e não se esvaziará como noite, existe completa.

Celeste.

Celeste era uma figura formidável. Tinha uma firmeza particular nos gestos e cheirava sempre a erva-doce. Nós conversávamos sobre tudo. A mente dela era cheia de histórias. Costumava me contar vidas inteiras de pessoas que nunca existiram. Uma vez eu a machuquei. Foi quando descobri que sua pele era de seda. Foi como vários pequenos cristais quebrando ao mesmo tempo. Ela sorriu por entre muitas lágrimas. Quis disfarçar - eu aceitei. Celeste nunca deixou de ser formidável, mas naquele dia surgiu nela um olhar que eu desconhecia. Seguiu inventando pessoas porque esse era o seu mundo. Aos distraídos pareceria a mesma. A dor agora me faz entender que todas as novas pessoas eram eu e ela. Éramos sempre nós dois. Ela tentou me avisar. Deixou tudo nas entrelinhas. Inventou tantos outros nós quanto foi possível. Eu não aceitei. Não conseguiria ser nada além de mim mesmo. Eu tirei isso dela. Ela assumiu muitos nomes porque não sabia mais ser Celeste. Não queria ser Celeste. A indel...